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Se você é cristão, sabe a quê esse cálculo se refere, você tem cumprido-o?

Por Arlan Dantas
Categoria: Reflexões

"[...] Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete", esta foi a resposta de Jesus ao ser questionado por Pedro sobre a quantidade de vezes que ele deveria perdoar ao seu irmão, acontecimento narrado em Mateus 18:22. Creio que, ao se referir a esse cálculo, Jesus está falando que devemos perdoar ao nosso irmão independente da quantidade de vezes que ele peque contra nós, se ele pecar trocentas vezes, devemos perdoá-lo trocentas vezes. Mas vamos tomar como base "apenas" as 490 vezes às quais Ele se refere... Será que somos capazes realmente de perdoar essa quantidade de vezes? Ou será que realmente perdoaríamos ao nosso irmão, pelo menos, 10% dessa quantidade de vezes?

Aqui no nordeste, quando um pessoa é enganada ou prejudicada por outra, é dito que ela está "fazendo papel de besta", outras vezes, falam que o enganador está "montando nas costas" do enganado, ou seja, está se aproveitando dele. Se seguirmos esta lógica, logo iremos concluir que a melhor decisão a ser tomada é se revoltar, ou, em outras palavras, tomar satisfações com aquela pessoa, mostrar que "você não é besta coisa nenhuma"! Mas... e se olharmos para Cristo e os Seus ensinamentos? Foi isso, realmente, que Ele ensinou?

Como já falei em outro artigo, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, puro, mas a queda e o pecado mudaram essa situação, agora, ao nascermos, já não somos mais à imagem e semelhança de Deus, mas sim à semelhança dos nossos pais (Gn. 5:3), já nascemos depravados, seguindo as vontades da nossa carne, "seguindo o curso deste mundo" (Ef. 2:2). Porém, quando Jesus entra em nossa vida, estas coisas mudam, nós deixamos de seguir o curso deste mundo e passamos a nos transformar e parecermos cada dia mais com Cristo, essa é a nossa razão de ser, agora.

E não vos conformeis com este século mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.

Romanos 12:2

Isso que Paulo indica aos romanos é algo que é primordial que façamos, que deixemos de lado as coisas que são deste século, deste mundo, e que busquemos nos transformar e renovar a nossa mente, pois só assim poderemos experimentar a vontade boa, agradável e perfeita de Deus.

Enquanto estivermos nos moldando para que possamos nos enquadrar numa visão de uma pessoa esperta e sábia, segundo este mundo, não iremos conhecer a real vontade de Deus, como é dito no capítulo 3 do livro de Provérbios "Não sejas sábio aos teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal;" (v.7).

Agora, voltando ao assunto do perdão, será que temos seguido o que foi falado por Cristo ou será que estamos seguindo a nossa carne e aos conselhos e pressupostos que recebemos do mundo ao nosso redor?

Sei que existem algumas situações que pensamos: "Rapaz, sei que sou crente, mas agora essa pessoa passou dos limites, não tem como eu perdoá-la". Mas não é bem assim que as coisas funcionam, meu irmão... Quando reconhecemos e afirmamos que Cristo é o nosso único Senhor e salvador, o Espírito Santo passa a habitar em nossos corações, ele passa a produzir frutos (Gl 5:22-23) em nossos corações que, anteriormente, quando seguíamos o curso deste mundo, não eram produzidos (Gl 5:17), entre tais frutos produzidos pelo Espírito Santo, encontra-se a "longanimidade", atributo que se refere, justamente, à paciência e pode ser definido como "paciência para suportar as ofensas dos outros ou os próprios sofrimentos"¹. Ou seja, se o Espírito Santo, realmente, habita em você, SEMPRE vai ter como perdoar àquela pessoa, pois você é longânimo(a).

Talvez você possa pensa algo como: "Mas, cara, você não me conhece! É uma característica minha, desde a infância, ter 'o pavio curto', me estressar fácil com as coisas, não ter muita paciência com as pessoas ao meu redor!", ok, meu irmão! Você poderia até ser assim, realmente... mas temos que ter em mente que já não vivemos mais a vida que vivíamos desde a infância. Quando o Espírito Santo passa a habitar na gente, tudo muda! Absolutamente tudo! Somos feitos novas criaturas (2Co 5:17)! Isso é algo que Paulo fala logo após citar aos gálatas os frutos gerados pelo Espírito em nós: "E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências." (Gl 5:24), a nossa carne e os seus frutos já morreram!

Outro texto bem conhecido que podemos citar, é o que Jesus fala durante o famoso "sermão do monte".

Ouviste que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixe-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas.

Mateus 5:38-41

Ao que Jesus se refere aí senão à longanimidade? O que é senão a termos paciência e perdoarmos a injúria do outro?

Voltando ao texto em que Pedro questiona a Cristo (Mt 18:21), logo após a sua resposta (v. 22), Jesus passa a narrar uma parábola² (ver referências) que conta a história de um servo que teve uma dívida muito grande perdoada pelo seu senhor, mas não foi capaz de perdoar uma dívida muito menor (equivalente a 0,0016 % da dívida anterior) que um companheiro seu tinha para com ele; ao saber que aquele servo não perdoou também a dívida do seu companheiro, o senhor ordenou que lançassem-no na prisão. Claramente, esta parábola se refere à dívida que tínhamos com Deus pelos nossos pecados, essa dívida já foi paga quando Cristo morreu por nós na cruz. Deus é representado pelo senhor, nós pelo servo e os nossos próximos pelo conservo. A dívida que tínhamos com Deus eram os nossos pecados que Ele perdoou de bom grado; já a pequena dívida do conservo são as injúrias que sofremos.

Duas coisas que acho interessante nesse texto são: a pergunta que o senhor faz ao servo: "[...] chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (vv. 32-33) e a conclusão feita por Jesus: "Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão." (v. 35). Ou seja, assim como Deus nos perdoou a dívida ao suplicarmos, devemos perdoar ao nosso irmão. E esse perdão não deve ser algo superficial, mas deve ser algo "do íntimo", algo que vem de dentro.

Bom, sei que talvez houvessem muito outros argumentos a serem utilizados aqui e que os versículos que utilizei como referência já são bem conhecidos por todos nós. Mas creio que a ideia do texto foi alcançada, que é mostrar que devemos perdoar ao nosso irmão em qualquer circunstância, pois vivemos uma nova vida, o Espírito Santo habita em nós e um perdão muito maior foi que recebemos do nosso Deus.

Referências

¹ Longanimidade - Dicionário Online de Português. http://www.dicio.com.br/longanimidade/

² Mateus 18:23-34: Por isso, o reino dos céus é semelhante a um rei que resolveu ajustar contas com os seus servos. E passando a fazê-lo, trouxeram-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Não tendo ele, porém, com que pagar, ordenou o senhor que fosse vendido ele, a mulher, os filhos e tudo quanto possuía e que a dívida fosse paga. Então o servo, prostrando-se reverente, rogou: Sê paciente comigo, e tudo te pagarei. E o senhor daquele servo, compadecendo-se, mandou-o embora e perdoou-lhe a dívida. Saindo, porém aquele servo, encontrou um dos seus conservos que lhe devia cem denários; e, agarrando-o, o sufocava, dizendo: Paga-me o que me deves. Então, o seu conservo, caindo-lhe aos pés, lhe implorava: Sê paciente comigo, e te pagarei. Ele, entretanto, não quis; antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida. Vendo os seus companheiros o que se havia passado, entristeceram-se muito e foram relatar ao seu senhor tudo que acontecera. Então, o seu senhor, chamando-o, lhe disse: Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me campadeci de ti? E, indignando-se, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que lhe pagasse toda a dívida. Assim também meu Pai celeste os fará, se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão.

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