Salvação sem obras, é possível?

Em meio ao povo protestante já é de conhecimento predominante que a salvação não se dá por meio de obras. Mas será que sem as obras é possível obter salvação?

Por Arlan Dantas
Categoria: Devocionais

Há alguns dias estava conversando com uma pessoa de outra religião, mas também cristã, e perguntei à mesma como deveríamos fazer para obter a salvação. Após algum tempo, a pessoa me respondeu que a salvação se dava por meio de obras. Mostrei alguns versículos e convenci ao indivíduo de que a salvação, na verdade, se dá por meio da fé em Cristo e da redenção obtida no seu sangue, o que já é de conhecimento de boa parte dos cristãos.

Esta confusão também acontecia com os judeus no tempo da igreja primitiva. Devido o costume que tinham de obedecer às leis da antiga aliança (aquelas estabelecidas por Moisés, como em Êxodo 20), eles pensavam que era por meio desta obediência que se dava a salvação. Mas Paulo explica na sua carta aos Romanos, no capítulo 3¹, que não é assim que se dá a salvação.

Vamos começar do começo, tomando alguns versículos desse capítulo (Rm 3) como base. Entre os versículos 1 e 20, Paulo explica aos leitores da carta que, na verdade, quando o assunto é pecado, não há distinção nenhuma entre judeus e gentios (judeus são as pessoas pertencentes ao povo de Israel, gentios são todos os outros que não pertencem àquele povo), "Todos se extraviaram; juntamente se fizeram inúteis. Não há quem faça o bem, não há nem um só.". Nos versículos 19 e 20, ele explica que isso se dá pois tanto judeus como gentios se encontravam "debaixo da lei", das ordenanças do Velho Testamento, e que não era por meio do cumprimento dessas leis que se havia justificação, pelo contrário, por meio dessas leis é que é obtido "o pleno conhecimento do pecado". As leis tinham como intuito exemplificar ao povo como agir mas não tinham o poder de justificá-lo.

Nós sabemos que com a morte de Cristo, uma nova aliança foi feita entre Deus e o Seu povo, deixamos de viver sob a lei e passamos a viver debaixo da graça (Rm 6:14). Tendo isso em mente, Paulo nos mostra que agora sim, sem lei, conhecemos a verdadeira justiça de Deus que foi apresentada pela lei e pelos profetas, "isto é, a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo para todos os que creêm; pois não há distinção. Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sendo justificados gratuitamente pela sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, ao qual Deus propôs como propiciação, pela fé, no seu sangue, para demonstração da sua justiça por ter ele na sua paciência, deixado de lado os delitos outrora cometidos; para demonstração da sua justiça neste tempo presente, para que ele seja justo e também justificador daquele que tem fé em Jesus.". A transcrição foi longa, admito, mas isso se dá pois os versículos explicam-se. A justiça de Deus se dá por meio do sangue de Cristo derramado para propiciação dos pecados de todos aqueles que creêm nEle como justificador, sejam eles judeus ou gentios "pois não há distinção [...] todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus".

Os últimos versículos são apresentam a conclusão desse assunto, que é iniciada com uma série de perguntas e suas respostas e explicações, "Onde está logo a jactância? Foi excluída. Por que lei? Das obras? Não; pela lei da fé.". Paulo pergunta agora onde está a "jactância", que quer dizer orgulho, ou seja: "Onde está agora o seu mérito?" Foi excluído. Mas excluído por que? Pelas leis das obras? O seu orgulho mérito foi excluído pelas obras que você mesmo fez? Não, ele foi eliminado pela lei da fé. "Concluímos pois que o homem é justificado pela fé sem as obras da lei.". Depois dessa explicação, você pode estar pensando que ficou óbvia a resposta à minha pergunta inicial: "Se o homem é justificado pela fé sem as obras da lei, então é possível obter a salvação sem obras". Mas vamos com calma... vamos terminar esse capítulo antes de respondermos à pergunta.

Os versículos 29 e 30, Paulo usa para, mais uma vez, mostrar que não existem diferenças entre os judeus e os gentios, seja o homem circunciso ou incircunciso (a circuncisão era um ritual feito pelos judeus para marcá-los como pertencentes àquele povo), a justificação vem por meio da fé.

"Anulamos, pois, a lei pela fé? De modo nenhum, antes estabelecemos a lei", são com essas palavras que o capítulo 3 da carta de Paulo aos romanos é finalizado. De uma forma mais discorrida, a leitura que tenho do que Paulo está falando aí é: "Visto que a salvação se dá apenas pela fé e não pelas obras, isso quer dizer que a fé se sobressai à lei e que eu já não preciso mais obedecer os mandamentos da lei? De modo nenhum, só agora que temos a fé salvífica é que somos capazes de obedecer à lei".

Talvez isso tenha ficado um pouco confuso. Mas vamos continuar, agora com a tradicional passagem da epístola de Tiago que nos explica um pouco mais da ligação entre fé e obras. A referida passagem encontra-se no segundo capítulo da epístola de Tiago, entre os versículos 14 e 26.

Nós já vimos, com os textos de Paulo, que a nossa salvação vem pela fé na redenção pelo sangue de Cristo. A passagem de Tiago já começa com uma pergunta que pode complementar as informações que obtivemos até aqui: "qual o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo?", depois da pergunta, Tiago mostra um exemplo de uma fé sem obras: alguém está sem roupas e sem alimento, você apenas abençoa àquela pessoa com palavras sem ajudá-la com os materiais dos quais ela está necessitando. Depois do exemplo, ele faz mais uma pergunta e segue com uma explicação bem interessante: "qual o proveito disso? Assim também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.".

Creio que, ao escrever esta epístola, Tiago já tinha conhecimento de que a salvação se dava por meio da fé. Mas o que ele nos trás aqui nesses versículos é que as nossas obras não devem ser menosprezadas, pois elas são uma forma de testificar a nossa fé, é a forma que temos de mostrar aos que estão ao nosso redor as mudanças causadas por Cristo em nossas vidas. Por mais que creiamos que Cristo morreu em nosso lugar para que os nossos pecados fossem perdoados, se não colocarmos em prática o Seu mandamento de "amar ao próximo como a si mesmo" a nossa fé estará morta, inoperante.

Numa certa ocasião (Mc 12:28-34), um escriba perguntou a Jesus: "Qual é o principal de todos os mandamentos?" e recebeu a resposta: "O principal é: Ouve, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força. O segundo é: amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes.". O primeiro mandamento já deveria estar sendo obedecido a partir do momento que temos fé. O segundo vem a ser um complemento do primeiro, como um resultado da nossa fé.

"Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele", estas são palavras de Paulo no capítulo 8 da sua carta aos Romanos (v. 9). Se tomarmos essa afirmação de Paulo como base e invertermos a sua lógica, perceberemos que os que realmente são de Cristo, têm o Seu Espírito. Em outra carta sua, desta vez aos crentes habitantes da Galácia, Paulo fala que esse mesmo Espírito nos faz produzir frutos diferentes daqueles que produzíamos enquanto andávamos "segundo a carne", são eles: "amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio" (Gl 5:22-23).

Se pararmos um pouco para pensar, veremos que todas essas coisas estão conectadas. Jesus nos mostrou quais são os dois maiores mandamentos, amarmos a Deus e ao próximo. Quando amamos a Deus, estamos exercitando a nossa fé e crendo que Cristo foi quem morreu para nos dar a salvação, logo, passamos a pertencer a Ele. Por pertencermos a Cristo, logo temos o Seu Espírito em nós, que produz esses frutos citados em Gálatas 5, frutos esses que nos fazem demonstrar o amor ao nosso próximo, e, por consequência, obedecermos às leis que foram ordenadas durante a antiga aliança (não matar, não roubar, etc.).

Concluindo, a nossa salvação vem por meio da nossa fé, esta, por sua vez, faz com que façamos boas obras. Ou seja, as nossas obras, a fé e a salvação são coisas que andam "de mãos dadas", uma cooperando e resultando na outra. Portanto, o que devemos fazer é fortalecer a nossa fé e a cada dia mais buscar nos encher do Espírito Santo, pois as obras são importantes sim, mas essas virão de forma espontânea ao nos enchermos do Espírito.

P.S.: Provavelmente, você percebeu que a pergunta feita no título (Salvação sem obras, é possível?) não foi respondida no texto, isso se dá pois no texto deixamos claro que uma fé que não produz obras é morta, logo essa fé não é eficaz. Porém, conversando com meu pai, percebi que temos exemplos de pessoas que se arrependem dos seus pecados, reconhecem que Cristo é o seu único salvador, mas não têm tempo de produzirem boas obras. Um exemplo clássico disso é o ladrão que foi crucificado ao lado de Jesus e obteve a salvação após a própria crucificação. Outro exemplo também comum são aquelas pessoas que estão com uma doença em fase terminal e "se convertem" nos últimos momentos de vida. Eles não tiveram tempo de produzirem as boas obras, mas se realmente confiavam na sua salvação por meio do sangue de Cristo, foram salvos. Ou seja, uma fé sem obras é morta, mas é possível sim ser salvo sem obras, porém isso configura uma exceção, não a regra, portanto, devemos procurar fortalecermos nossa fé e produzirmos cada dia mais o fruto do Espírito em nossas vidas, amarmos aos nossos próximos.

Referências

¹ Recomendo que a leitura da passagem referida seja feita antes da continuação da leitura deste texto.

Fale conosco. Hospedado pela Brasil Hospeda.