Onde está seu irmão?

Quando Deus pergunta alguma coisa ao homem quer dizer que Ele precisa de mais informações?

Texto de Vincent Cheung.
Traduzido por Arlan Dantas.
Categoria: Devocionais

Então o SENHOR disse a Caim: "Onde está seu irmão Abel?"" Eu não sei", ele respondeu." Eu sou o guardador do meu irmão?" O Senhor disse:" O que você fez? Ouça! O sangue do teu irmão clama a mim da terra"

Gênesis 4:9-10

Deus perguntou a Caim: "Onde está seu irmão?" A passagem deixa claro que Deus fez a pergunta não porque ele não sabia a resposta e precisava de um homem para lhe dizer. Ou seja, quando Caim negou que sabia, Deus revelou que ele já sabia o que havia acontecido, que Caim havia matado Abel. Ele disse: "O que você fez?" Mas, novamente, ele não estava pedindo informações. Era uma pergunta retórica, pois ele imediatamente acrescentou: "O sangue de seu irmão clama por mim."

A partir disso, derivamos dois princípios que devem controlar o nosso pensamento na teologia e na interpretação bíblica:

Em primeiro lugar, é um dogma cristão inegociável que Deus sabe todas as coisas. Poderíamos acrescentar que Deus sabe todas as coisas, porque ele causa todas as coisas, incluindo pensamentos e atos humanos, mas é possível colocar isso de lado por enquanto e se concentrar em seu conhecimento. Deus sabe a verdade sobre todas as coisas, e não pode ser enganado. A resposta de Caim foi contrária à verdade, mas isso não afetou o conhecimento de Deus. Ele sabia a verdade e viu através do engano de Caim.

Em segundo lugar, fica estabelecido que quando Deus faz uma pergunta, nunca significa que ele não sabe a resposta, e, portanto, quando ele faz uma pergunta, deve ser com um propósito diferente do que de obter informações. Na verdade, a nossa passagem enfatiza o conhecimento de Deus, já que ele claramente sabia a verdade, mesmo diante do engano de Caim. Embora Deus já soubesse o que havia acontecido, em vez de imediatamente enfrentar Caim, ele produziu uma ocasião ou um contexto no qual ele poderia discutir esse assunto com o homem.

Assim, quando Deus faz uma pergunta, ou quando ele fala de uma maneira como se ele não fosse onipotente e onisciente, não é devido a qualquer deficiência em si mesmo, mas tem a finalidade de interagir com as suas criaturas de uma forma que seja inteligível e compreensível para elas.

Há aqueles que pensam que tais interações são possíveis somente se Deus estivesse limitado em poder e conhecimento, e eles apoderam-se de passagens onde Deus age e fala de uma forma que permite que suas criaturas respondam. No entanto, dadas as considerações anteriores, esta doutrina é impossível, antes deve ser condenada como heresia e blasfêmia.

Interações que são inteligíveis e significativas para as criaturas não dependem de qualquer impotência ou ignorância de Deus, mas dependem do que alguns chamariam de sua condescendência. Um homem não pode funcionar como se fosse deus; sua mente não pode suportar ou comunicar todo o conhecimento em um instante. Se Deus e o homem estão interagindo um com o outro, Deus teria que se comunicar de uma forma que o homem pode seguir, compreender e responder, e isso é o que Deus tem feito ao longo da história, e de forma pública e permanente, na Bíblia.

Ao contrário do que alguns hereges têm ensinado, isto não significa que Deus se comunica com o homem apenas em termos de analogias, ou que o homem tem apenas uma analogia de informações sobre o ser de Deus e da mente de Deus. Não há base bíblica para esta doutrina estranha. O condescendimento de Deus não altera a natureza ou o estado das informações comunicadas – é apenas uma maneira diferente de se comunicar.

João escreveu que iremos conhecer assim como somos conhecidos. Mas a menos que sejamos deificados no céu, e nós não iremos ser, Deus ainda terá que condescender quando ele se comunicar conosco, de forma que se temos somente uma analogia da verdade agora, vamos ter apenas uma analogia da verdade para sempre. Isto contradiz João, bem como todo o testemunho das Escrituras. Em vez disso, se iremos permanecer humanos, e se iremos conhecer assim como somos conhecidos, significa que podemos possuir um conhecimento inequívoco sobre Deus mesmo agora. A diferença é apenas no grau ou quantidade de conhecimento. Paulo afirma isso quando escreve: "Agora, conheço em parte; Então, conhecerei plenamente, como também sou completamente conhecido" Temos uma abundância de conhecimento sobre Deus agora, e teremos ainda mais conhecimento no futuro, de tal forma que pode ser dito que vamos conhecer então, assim como somos conhecidos agora.

Tudo isto equivale a uma refutação da doutrina tradicional da incompreensibilidade de Deus, a qual representa Deus como um mistério, mesmo que sejamos feitos à sua imagem, e mesmo que ele tenha se revelado e se explicado. Ironicamente, essa doutrina tem sido usada como um teste de ortodoxia, quando a formulação tradicional é em si uma rejeição de Deus e das Escrituras, e um exemplo de heresia e blasfêmia. Os cristãos não devem ter vergonha de se opor a isso, e de derrubar aqueles que afirmam isso. Não tenha medo dos poderes eclesiásticos. Nenhum teólogo, seminário, ou denominação, e nenhum conselho ou confissão ou 'tribunal religioso', ou qualquer outra autoridade humana, têm o direito de usurpar o poder de Cristo e de forçá-lo a acreditar em falsa doutrina. Se liberte do jugo e revide.

Quando Deus ordenou que Abraão sacrificasse Isaque, mesmo que ele tenha dito: "agora eu sei que temes a Deus”, foi com o objetivo de manter a interação para o benefício do homem, e não porque o Deus onisciente descobriu algo novo. Quando o Senhor interrompeu o sacrifício, um carneiro já estava preparado, preso pelos chifres na moita. Ele conhecia o coração do homem o tempo todo, mas o comando produziu uma ocasião para Abraão demonstrar sua obediência, para Deus renovar e adicionar as suas promessas, e para que a revelação fosse registrada e interpretada, uma vez que a fé de Abraão era uma metáfora para a crença na ressurreição.

Quando Deus mostrou a Ezequiel um vale de ossos secos e perguntou: "Podem estes ossos viver?" Ele não estava solicitando uma informação que ele precisava. O profeta sabiamente respondeu: "Senhor, Tu o sabes." E, claro, o Senhor sabia, pois ele mesmo iria fazer com que os ossos revivessem e que carne viesse sobre eles. Da mesma forma, quando Jesus perguntou a Filipe: "Onde compraremos pão para esse povo comer?" a Bíblia explicou, "Ele perguntou isso só para testá-lo, pois ele já tinha em mente o que ia fazer."

Agora o Senhor Jesus testa todos os homens pela mensagem Cristã, pela qual ele nos envia a perguntar em seu nome, "Quem dizes que eu sou?" Ele pergunta isso não porque ele não saiba o que as pessoas pensam – ele é o bom pastor, e chama as suas ovelhas pelo nome. Em vez disso, o pastor divino condescende e interage com os homens. De acordo com sua reação ao evangelho, eles são revelados como sendo os filhos do céu ou os filhos do inferno. Aqueles que acreditarem com seus corações e confessarem com suas bocas que Jesus Cristo é Senhor serão salvos, e aqueles que não o fizerem serão condenados.

Há aqueles que, como Caim, tentam enganá-lo, chamando-o: "Senhor, Senhor", embora seu coração esteja longe dele. Mas mesmo que ele pergunte aos homens se eles desejam se arrepender e crer no evangelho, ele já conhece seus corações, e vai dizer aos impostores: "Por que vocês me chamam Senhor, mas se recusam a fazer o que eu digo? Certamente eu nunca conheci que vocês!" E ele irá lançá-los na escuridão, onde haverá pranto e ranger de dentes.

Referências

Cheung, Vicent. SERMONETTES VOLUME 1. Copyrigth 2010 by Vincent Cheung. Tradução feita com a permissão do autor.

Texto original: http://www.vincentcheung.com/books/Sermonettes,%20Volume%201.pdf

Vincent Cheung é um pregador e escritor cristão. Ele mora com sua esposa nos Estados Unidos.

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