Cristãos e homossexuais

Uma rápida reflexão sobre esse assunto e qual seria uma visão bíblica sobre o mesmo.

Por Arlan Dantas
Categoria: Reflexões

Um assunto que tem se mantido ativo há algum tempo na nossa sociedade é a homossexualidade. A cada dia acontece algo que contribui para que isso aconteça, seja a aprovação de uma lei em algum lugar do mundo ou seja pela troca de "carinho" entre políticos gays e religiosos durante sessões parlamentares.

Ao longo desse tempo que se mantém ativo, uma parte desse assunto tem recebido uma certa atenção especial, que é a já citada "discórdia" entre homossexuais e cristãos, sejam estes políticos, pastores, ativistas e líderes de grupos de grande representatividade ou apenas um jovem que está passando por mudanças em sua vida sexual e um novo convertido, sempre recebemos notícia sobre esses embates.

Se você faz uso de alguma rede social, com toda certeza você já se deparou com algo referente a esse assunto. Isso tem acontecido bastante comigo nos últimos meses e tem me chamado atenção, pois, na maioria das vezes, os conteúdos que encontro nas minhas redes sociais se referem a afirmações, geralmente sarcásticas, que têm como objetivo mostrar que na bíblia não diz em lugar nenhum para agredir gays nem que Deus abomina os homossexuais e coisas desse tipo.

Diante dessa situação, me senti na obrigação de produzir algum conteúdo mostrando a visão minha e de uma parte esmagadora da população cristã.

Quando vejo as postagens que são feitas sobre agressão ou o seu incentivo por parte de cristãos aos gays, sempre fico curioso, pois já fazem alguns anos que frequento o meio cristão, (evangélico, mais frequentemente) e, pelo que me lembro, nunca me deparei com alguma situação na qual houve o incentivo por parte de algum líder à agressão a terceiros, pelo contrário, o que mais tenho ouvido falar nesse tempo é sobre o amor, a paciência, a benignidade... Mas os relatos de pessoas que dizem ter presenciado tal acontecimento aumenta a cada dia, então consideraremos que acontece sim esse incentivo no meio cristão.

Um primeiro ponto que devemos levantar para entender um pouco mais sobre a visão cristã da situação é: A homossexualidade é considerada um pecado. Muitas vezes soa estranho para quem não é cristão ouvir uma frase como: "devemos amar aos homossexuais da mesma forma como amamos assassinos, ladrões, estupradores..." na maioria das vezes, quando algum não-cristão ouve algo desse tipo, se espanta e logo surge algo desse tipo: "Como assim ele está comparando um homossexual com um assassino, um ladrão ou um estuprador!? Os gays não mataram ninguém! Os gays não são criminosos!", não podemos negar que esse entendimento é válido, visto que a pessoa, provavelmente, não entendeu qual o sentido da enumeração feita na frase. Normalmente, quando alguém fala uma frase desse tipo, tem como objetivo dizer que "devemos amar os homossexuais da mesma forma como amamos qualquer outro pecador", a utilização de criminosos como exemplo se dá para que seja compreendido de uma forma mais clara por quem está ouvindo, uma versão mais estendida dessa frase seria: "Da mesma forma como acolhemos as outras pessoas que procuram abandonar costumes pecaminosos como o assassinato, o roubo e o estupro, devemos fazer com os nossos próximos homossexuais". Essa afirmação e comparação tem como objetivo a quebra do tabu que ainda existe por parte dos cristãos no que se refere ao acolhimento dos homossexuais na comunidade cristã.

Nas traduções mais tradicionais da bíblia, não encontramos a palavra "homossexual", mas temos sim algumas passagens que são tomadas como exemplo para mostrar a pecaminosidade dessas relações sexuais. Nos primeiros livros da bíblia que constituem o chamado pentateuco e narram a história do início do povo judeu, o que inclui a obtenção das leis desse povo, temos alguns mandamentos que fazem referência e oposição às relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo (Levítico 18:22). Nesse mesmo contexto, temos outros mandamentos que, com fundamentos, já não são mais colocados em prática por nós cristãos e acabam servindo de "desculpa" para quem quer se livrar desses argumentos contra as relações homossexuais, então não vamos utilizá-los aqui. Outra passagem que também é muito utilizada pelos cristãos e, na mesma escala, também é desconstruída de várias formas pelos não-cristãos, é a passagem de uma das cartas do apóstolo Paulo que ele fala sobre "efeminados" (1 Coríntios 6:10). Não estou dizendo que essas passagens não têm validade para provar a pecaminosidade das relações homossexuais, mas sim que existem outras passagens mais claras que também falam dessa situação.

Na sua carta aos cristãos que habitavam em Roma, o apóstolo Paulo trata, principalmente, sobre a relação entre os judeus, os descendentes de sangue de Abraão, e os cristãos "gentios", aqueles que não são descendentes de Abraão. Há poucos dias estava estudando sobre essa carta e vi uma parte bem interessante e que nos ajuda a entender de forma bem mais simples o assunto desse texto. No final do primeiro capítulo da sua carta aos Romanos, Paulo está falando que Deus se revelou a todos os homens por meio das coisas Ele mesmo criou, alguns homens (seres humanos no geral) tomaram conhecimento disso, perceberam a existência de Deus por meio dessas coisas, mas, ainda assim, "não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças" (v. 21). Paulo fala que esses homens, mesmo tendo ao seu redor a afirmação da existência de um ser criador e divino, se recusaram a adorá-lo e deram essa adoração a outros seres, como "aves, quadrúpedes e répteis" (v. 23). Além de, para nós, ter uma certa carga figurativa até aqui, podemos entender a mensagem passada pelo autor da carta, que basicamente é: Deus criou todas as coisas e, por meio dessas, se revelou de uma forma grandemente notória ao ser humano, porém este se recusa a reconhecer isso e prefere atribuir todos os acontecimentos a outras coisas que não é o Deus criador.

Depois disso, Paulo vai mostrar qual a consequência disso tudo na vida desses seres humanos, ele diz que "Por isso, Deus entregou tais homens à imundícia, pelas concupiscências do seu próprio coração de seu próprio coração para desonrarem seu corpo entre si" (v. 24). Quem tem um mínimo conhecimento da bíblia, sabe que das vezes que se refere ao que é fruto do próprio homem, refere-se também àquilo que não vem de Deus, àquilo que não é bom. Em alguns momentos, isso é chamado de "fruto da carne", mas sempre que se refere àquilo que sai do próprio homem, está se referindo àquilo que não vem de Deus, àquilo que desagrada-O. E é isso que encontramos aqui nesses versículos, Paulo está dizendo que, por se recusarem a reconhecer Deus como soberano, as pessoas passam a fazer coisas erradas, que provém de si e não de Deus.

Logo em seguida, vem o trecho no qual Paulo se refere à relação entre pessoas do mesmo sexo:

Por causa disso, os entregou Deus a paixões infames; porque até as mulheres mudaram o modo natural de suas relações íntimas por outro, contrário à natureza; semelhantemente, os homens também, deixando o contato natural da mulher, se inflamaram mutuamente em sua sensualidade, cometendo torpeza, homens com homens, e recebendo, em si mesmos, a merecida punição do seu erro.

Romanos 1:26-27

Nesses versículos, Paulo fala que, por consequência da sua rejeição a Deus e da sua entrega à imundícia, essas pessoas são entregues a paixões "infames" (esse adjetivo se refere a algo desprezível ou desonrado) e, ilustrando essas paixões infames, fala sobre a relação entre pessoas do mesmo sexo. Além disso, o texto deixa bem claro que Paulo considera a relação sexual entre homem e mulher como natural e a relação de "homens com homens" como "torpeza", ou seja, algo indecente, obsceno ou repulsivo.

No restante deste capítulo (vv. 28-32), são narradas outras consequências do desprezo do homem ao conhecimento de Deus e da sua consequente entrega a uma "disposição mental reprovável", entre essas outras consequências, encontram-se coisas como as que são usadas nas frases que citei no início desse texto: "[...] homicídio, [...] inventores de males, desobedientes aos pais, [...] pérfidos [...]", ou seja, da mesma forma como homicídios, coisas más, desobediência aos pais e o engano ("pérfidos"), a relação homossexual é citada por Paulo como algo que não provém de Deus, mas sim do próprio homem que recusa o conhecimento dEle.

Se desejar ler todo esse capítulo da carta de Paulo aos romanos, clique aqui.

Mas outra coisa interessante que devemos levantar aqui e que também é visto na bíblia, nesse mesmo livro e com as palavras do mesmo apóstolo Paulo é: "não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Romanos 3:22b-23). Como já mostrei nos parágrafos anteriores, a homossexualidade é algo que não vem de Deus, logo é um pecado. Mas não só a homossexualidade é um pecado, muitas outras coisas também o são. Como é mostrado ao longo de toda a bíblia, muitas outras coisas também não provém de Deus. E TODOS, absolutamente TODOS os seres humanos nascidos de uma relação entre outros dois seres humanos, cometem algo desse tipo. Ou seja, isso invalida a utilização da homossexualidade como argumento para o ódio ou para a agressão a outra pessoa, pois da mesma forma como um homossexual está pecando, todos nós também estamos, cada um da sua forma, mas todos estamos. Além disso, os cristãos não têm motivo algum para ter ódio de ninguém, pelo contrário, o que somos orientados a fazer ao longo de toda a bíblia é: "Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" (paráfrase de Marcos 12:30-31). Além dessa ideia dos versículos do evangelho Marcos terem se tornado um grande clichê, ela sintetiza de uma forma genial qual é a ideologia cristã: "ter Deus como objetivo principal das nossas vidas e o amor ao próximo como algo equivalente ao amor que você sente por você mesmo, fazer pelo próximo o que você faria por você mesmo".

Além do contexto bíblico, devemos ter em mente, também, que houve uma contribuição cultural para que essa problemática entre homossexuais e cristãos chegasse ao nível que se encontra hoje. O nosso país, quer queiramos ou não, ainda é um país bastante preconceituoso e intolerante (posso dizer isso com toda a certeza, pelo menos, sobre o contexto no qual fui criado). Nos últimos tempos, essa cultura tem sido desconstruída, mas ainda há muito a caminharmos nesse sentido. E esse preconceito somado ao fato de que a homossexualidade é um "pecado mais visível" que os outros, faz com que o preconceito seja, erroneamente, mais perceptível no meio cristão. Somando-se a isso tudo, encontra-se também a dificuldade imposta pelos políticos cristãos à obtenção de direitos por parte dos homossexuais.

Para concluir todo o raciocínio que fizemos até aqui, vamos relembrar a passagem já citada de Romanos 3: "não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus". Esse versículo nos faz entender qual deve ser a posição de um cristão frente a toda essa problemática que tratamos aqui. Além da pecaminosidade das relações homossexuais, isso não os faz diferente de forma alguma dos outros seres humanos. Todos nós somos pecadores e, igualmente, carecemos da glória de Deus. A única forma de sermos limpos e libertos dos nossos pecados é por meio da fé no sacrifício de Jesus na cruz, é crendo que Ele, quando morreu, levou consigo todos os nossos pecados mas ressuscitou e nos deu livre acesso a Deus. Essa é a única forma que qualquer um pode se afastar dos seus pecados, sejam eles quais forem, e voltar a estar próximo da glória de Deus. Sendo assim, podemos perceber que a forma mais correta de um cristão agir diante dessa situação é demonstrando o amor seu e de Deus para com o seu irmão mostrando-o o caminho à cruz de Cristo.

Recomendo a leitura do outro artigo que fiz continuando esse assunto, agora respondendo à pergunta: "O Cristão pode ser gay?" (clique aqui).

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