O Credo Niceno e a Importância de uma Única Letra

Atanásio, um teólogo que brigou não apenas por causa de uma palavra, mas por causa de uma letra, por seis décadas!

Texto de Stephen J. Nichols.
Traduzido por Kellvyn Mendes.
Categoria: Teologia

Este post é uma adaptação de For Us and For Our Salvation: The Doctrine of Christ in the Early Church (Tradução Livre: Por Nós e Pela Nossa Salvação: A Doutrina de Cristo na Igreja Primitiva) por Stephen J. Nichols.

 

Tempo Desperdiçado?

Creio...em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz da Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado não feito, de uma só substância com o Pai.

Credo Niceno

 

Você pode ter ouvido alguém se referir a teólogos como aqueles que desperdiçam, no alto de suas torres de marfim, tempo e energia em seus debates sem aplicação prática. (Para deixar claro, eu nunca morei e nem trabalhei em uma torre de marfim, e não consigo dizer nenhum colega teólogo que tenha vivido.) A expressão da torre de marfim reflete o sentimento daqueles que facilmente se cansam do aparentemente fútil debate teológico e da luta aparentemente interminável sobre pontos de vista em questões periféricas.

De fato, a realização de visões teológicas sobre todos e quaisquer assuntos parece não ter fim. No entanto, a igreja não poderia ser tão grata a uma pessoa, como ela pode e deve ser, a Atanásio, um teólogo que brigou não apenas por causa de uma palavra, mas por causa de uma letra, por seis décadas! Atanásio passou sua vida em um longo debate teológico sobre aparentes minúcias. E se ele não tivesse feito isso, todos estaríamos em apuros.

A persistência de Atanásio deu certo. Após sua morte em 373, o segundo concílio ecumênico foi convocado em Constantinopla em 381. Constâncio II há muito já havia saído de cena, e Teodósio II, que governou o Império Oriental entre 379-395, estava ansioso para derrotar a controvérsia ariana, onde Ário mantinha a visão de que Cristo foi mais do que um humano, mas não era idêntico em essência ou ao ser de Deus. Em Constantinopla qualquer aceno potencial ao arianismo, ou mesmo uma piscadela para ele, foi posto para fora da igreja de uma vez por todas. A posição de Atanásio, com relação a Cristo ser de uma única substância ou essência (homoousion) com o Pai ganhou o dia, enquanto que a visão de Ário, de Cristo como sendo de substância similar ao Pai (homoiousion), foi declarada fora dos limites da ortodoxia e, assim, condenada.

 

Discutindo Por uma Única Letra

Alguém pode se perguntar por que Atanásio resistiu tanto, por tanto tempo. Por que ele brigou por décadas por causa uma palavra, de uma letra, i? A razão vem em uma frase também encontrada no Credo Niceno, uma frase que é atribuída a Atanásio. Talvez não seja mais do que um trecho, mas deve-se reconhecer que esta é uma das mais profundas, se não bonitas, frases em toda a literatura teológica: "por nós homens e por nossa salvação."

Atanásio discutiu com as melhores mentes da época e sofreu perseguição nas mãos dos mais poderosos políticos da época, tudo por causa do evangelho. A pessoa de Cristo, Atanásio acreditava, tinha tudo a ver com a obra de Cristo. Se a igreja entendesse errado a pessoa de Cristo, a igreja estaria errada sobre a obra de Cristo. Atanásio passou seis décadas lutando por causa de uma letra e em disputa contra o mundo por causa do evangelho.

 

Afirmação Enfática

Os Concílios de Nicéia (325) e de Constantinopla (381) afirmaram enfaticamente as naturezas divina e humana de Cristo. O Credo Niceno declara a deidade de Cristo—ele é "Deus de Deus"—e a humanidade de Cristo "foi feito homem." O Credo mais de uma vez eloquentemente declara que este entendimento da pessoa de Cristo tem tudo a ver com a obra de Cristo.

Ele é o Deus-homem "por nós homens e por nossa salvação."

Apesar de não estabelecer a divindade de Cristo, Nicéia de fato expressou sua deidade, e sua humanidade nesse sentido, com clareza e eloquência e com uma finalidade que tem resistido ao teste do tempo, proporcionando à igreja com a definição ortodoxa da pessoa de Cristo.

 

Referências

Por: Stephen J. Nichols. © 2001 – 2016 CROSSWAY

Original: https://www.crossway.org/blog/2016/05/the-nicene-creed-and-the-importance-of-a-single-letter/

Stephen J. Nichols (PhD, Westminster Theological Seminary) é presidente da Reformation Bible College e diretor acadêmico oficial do Ministério Ligonier. Anteriormente, atuou como professor de pesquisa de cristianismo e cultura na Lancaster Bible College. Ele é um editor (com Justin Taylor) da série Theologians on the Christian Life e é o autor de vários livros, incluindo The Reformation, For Us and for Our Salvation, The Church History ABCs, e Bonhoeffer on the Christian Life.

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