A Oração Muda a Mente de Deus?

Se todos os cristãos do mundo orassem em conjunto, isso não iria mudar o que Deus, em Seu conselho oculto, determinou fazer.

Texto de R.C. Sproul.
Traduzido por Kellvyn Mendes.
Categoria: Teologia

A oração faz alguma diferença? Ela realmente muda alguma coisa? Alguém me fez essa pergunta uma vez, só que de maneira um pouco diferente: "A oração muda a mente de Deus?" Minha resposta trouxe tempestades de protestos. Eu simplesmente disse: "Não" Agora, se a pessoa tivesse me perguntado, "A oração muda as coisas?" Eu teria respondido: "É claro!"

A Bíblia diz que há certas coisas que Deus decretou desde toda a eternidade. Essas coisas inevitavelmente acontecerão. Se você orasse individualmente, ou se você e eu uníssemos nossas forças em oração, ou se todos os cristãos do mundo orassem em conjunto, isso não iria mudar o que Deus, em Seu conselho oculto, determinou fazer. Se decidíssemos orar para Jesus não voltar, Ele ainda assim voltaria. Você pode perguntar, então, "A Bíblia não diz que se dois ou três concordarem em qualquer coisa, eles irão conseguir o que querem?" Sim, é verdade, mas essa passagem está falando sobre disciplina na igreja, não sobre pedidos de oração. Portanto temos quer levar em conta todo o ensino bíblico sobre a oração e não isolar um trecho do resto. Temos de abordar o assunto à luz de toda a Escritura, resistindo a uma leitura atomística. Novamente, você pode perguntar: "A Bíblia não diz, de vez em quando, que Deus se arrepende?" Sim, o Antigo Testamento certamente diz. O livro de Jonas nos diz que Deus "se arrependeu" do julgamento que Ele havia planejado para o povo de Nínive (Jonas 3:10, ACF). Ao usar o conceito de arrependimento aqui, a Bíblia descreve Deus, que é Espírito, no que os teólogos chamam de linguagem "antropomórfica". Obviamente a Bíblia não quer dizer que Deus se arrependeu da forma que nós nos arrependeríamos; caso contrário, poderíamos muito bem supor que Deus havia pecado e, portanto, necessitaria, Ele próprio, de um Salvador. O que isso claramente significa é que Deus removeu a ameaça de juízo das pessoas. A palavra hebraica nacham, traduzida como "arrepender-se" na Almeida Corrigida Fiel, significa "confortado" ou "aliviado" neste caso. Deus foi consolado e sentiu-se aliviado que o povo havia se convertido de seu pecado, e por isso Ele revogou a sentença de juízo que Ele tinha imposto.

Quando Deus paira Sua espada de juízo sobre a cabeça das pessoas, e elas se arrependem e Ele então retém Seu juízo, Ele realmente mudou de ideia? A mente de Deus não muda porque Deus não muda. As coisas mudam, e mudam de acordo com a sua vontade soberana, que Ele exerce através de causas secundárias e atividades secundárias. A oração do Seu povo é um dos meios que Ele usa para fazer coisas acontecerem neste mundo. Então, se você me perguntar se a oração muda as coisas, eu respondo, sem hesitar, com um "Sim!"

É impossível saber o quanto da história humana reflete a intervenção imediata de Deus e o quanto revela Deus trabalhando através de agentes humanos. O exemplo favorito de Calvino sobre esse assunto era o livro de Jó. Os sabeus e os caldeus haviam tomado os burros e camelos de Jó. Por quê? Porque Satanás havia agitado seus corações para fazer isso. Mas por quê? Porque Satanás havia recebido permissão de Deus para testar a fidelidade de Jó de qualquer maneira que ele assim desejasse, menos tirando a vida de Jó. Por que Deus concordou com uma coisa dessas? Por três razões: (1) para silenciar a calúnia de Satanás; (2) para justificar a Si mesmo; e (3) para justificar Jó da calúnia de Satanás. Todas estas razões são justificativas perfeitamente justas para as ações de Deus.

Por outro lado, o propósito de Satanás, ao agitar estes dois grupos, era fazer com que Jó blasfemasse contra Deus, um motivo totalmente perverso. Mas notamos que Satanás não fez algo sobrenatural para realizar seus fins. Ele escolheu agentes humanos, os sabeus e caldeus que eram maus por natureza, para roubar os animais de Jó. Os sabeus e os caldeus eram conhecidos por seus roubos e pela forma assassina de vida. A vontade deles estava envolvida, mas não houve coerção; o propósito de Deus foi realizado por meio de suas más ações.

Os sabeus e os caldeus eram livres para escolher, mas para eles, como para nós, a liberdade sempre significa liberdade dentro dos limites. Não devemos, no entanto, confundir liberdade humana e autonomia humana. Sempre haverá um conflito entre a soberania divina e a autonomia humana. Nunca há um conflito entre a soberania divina e a liberdade humana. A Bíblia diz que o homem é livre, mas ele não é uma lei autônoma para si.

Suponha que os sabeus e caldeus tivessem orado, "Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal." Estou absolutamente certo de que os animais de Jó ainda teriam sido roubados, mas não necessariamente pelos sabeus e caldeus. Deus talvez tivesse escolhido responder suas orações, mas Ele usaria algum outro agente para roubar os animais de Jó. Há liberdade dentro dos limites, e dentro desses limites, nossas orações podem mudar as coisas. As Escrituras nos dizem que Elias, através da oração, impediu a chuva de cair. Ele não foi dissuadido de orar por causa do seu entendimento da soberania divina.

Nenhum ser humano jamais teve uma compreensão mais profunda da soberania divina do que Jesus. Nenhum homem jamais orou com mais força ou de forma mais eficaz. Mesmo no Getsêmani, Ele pediu por uma opção, uma maneira diferente. Quando o pedido foi negado, Ele se curvou à vontade do Pai. Nós só oramos por causa da soberania de Deus, porque acreditamos que Deus tem em si, poder para ordenar as coisas de acordo com seu propósito. É isso que soberania significa, ordenar coisas de acordo com o propósito de Deus. Portanto, a oração muda a mente de Deus? Não. A oração muda as coisas? Sim, é claro. A promessa das Escrituras é que " A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos" (Tiago 5:16). O problema é que não somos tão justos assim. O que a oração muda, mais frequentemente, é a maldade e a dureza de nossos próprios corações. Só isso já seria motivo suficiente para orar, mesmo se nenhum dos outros motivos fossem válidos ou verdadeiros.

Em um sermão intitulado "O Altíssimo, um Deus que Ouve a Oração," Jonathan Edwards deu duas razões pelas quais Deus requer a oração:

Com relação a Deus, a oração é apenas um reconhecimento sensato de nossa dependência dele, para sua glória. Como ele fez todas as coisas para a sua própria glória, então ele será glorificado e reconhecido por suas criaturas; e é apropriado que ele requeira isto daqueles que seriam objetos de sua misericórdia. . . [isso] é um reconhecimento adequado da nossa dependência no poder e misericórdia de Deus das quais precisamos, e nada mais do que uma honra adequada, prestada ao grande Autor e Fonte de todo o bem.
No que diz respeito a nós mesmos, Deus requer oração de nós... As orações fervorosas, muitas vezes, tendem a preparar o coração. Nisto é despertado um senso da nossa necessidade...em que a mente está mais preparada para valorizar [sua misericórdia]... Nossa oração a Deus pode despertar em nós uma noção e consideração adequada da nossa dependência de Deus pela misericórdia que pedimos, e um exercício adequado de fé na suficiência de Deus, para que possamos estar preparados para glorificar o seu nome quando a misericórdia é recebida.

(The Works of Jonathan Edwards [Carlisle, Pa.: Banner of Truth Trust, 1974], 2:116)

 

Tudo o que Deus faz é primeiro para a Sua glória e em segundo para o nosso benefício. Oramos porque Deus nos ordena a orar, porque isso glorifica a Ele e porque nos beneficia.

 

Referências

Este trecho é tirado do livro A Oração Muda as Coisas? (Série Questões Cruciais) Baixe mais ebooks de graça da série Questões Cruciais aqui.

Por: R.C. Sproul. © 2017 Ligonier Ministries

The article originally appeared here at Ligonier Ministries

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