Dois tipos de cristãos

Em Romanos 6 podemos observar dois tipos de Cristãos

Por Kellvyn Mendes
Categoria: Teologia

Nos versículos 1 e 15 do capítulo 6 da carta aos Romanos, Paulo nos apresenta dois tipos de cristãos que são comumente encontrados. Para entendermos o contexto dessa passagem deve-se ter em mente que por diversas vezes Paulo utiliza de supostas perguntas ou afirmações no meio de seus argumentos, como se fossem de outras pessoas. Não sabemos se essas perguntas realmente foram feitas para ele durante alguma de suas explanações sobre o assunto ou se ele, por experiência, adquiriu essa habilidade tão comum que professores têm de “prever” as perguntas que serão feitas diante de suas explicações.

No capítulo 5 da carta aos Romanos, Paulo está falando sobre a justificação pela fé e a partir do versículo 12 começa a fazer um comparativo entre o primeiro Adão e o segundo Adão (Cristo), argumentando que “não se pode comparar a dádiva de Deus com a ofensa de um único homem” (Romanos 5:16) e que “assim como por meio da desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, por meio da obediência de um único homem muitos serão feitos justos” (Romanos 5:19). Isso o leva à seguinte declaração: “A lei foi introduzida para que a transgressão fosse ressaltada. Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça” (Romanos 5:20). Dessa forma, Paulo nos faz esse contra-argumento: “Continuaremos pecando para que a graça aumente?” (Romanos 6:1), ou seja, já que a graça de Deus tem sido revelada através do pecado humano, vou continuar pecando para que a graça de Deus aumente cada vez mais?

Nesse argumento nós identificamos o primeiro tipo cristão retratado nesse capítulo, os legalistas. Legalismo é basicamente o ato de pôr a lei acima do evangelho de Cristo ao colocar elementos para a salvação que vão além da fé em Cristo. Vemos que essa conclusão que Paulo nos apresenta é logo seguida por um sonoro “De maneira nenhuma” (Romanos 6:1a). Vamos identificar pelo menos dois motivos pelos quais alguém segue essa linha de pensamento.

  1. Não compreender as consequências que a morte de Cristo produz na vida do cristão

    A lei expõe o pecado (Romanos 7:7,8), então voltar a viver na lei é voltar à escravidão do pecado. No entanto, aqueles que foram transformados pelo Espírito Santo não podem voltar à escravidão da lei. Paulo nos diz que o nosso velho homem foi crucificado junto com Cristo e, portanto, não poderemos mais viver debaixo do jugo pecado. Assim devemos nos considerar como mortos para o pecado (Romanos 6:11). Então, voltar para o domínio da lei, é anular o sacrifício de Cristo na cruz. Devemos entender que para participar da ressureição com Cristo devemos primeiro morrer com Ele.

  2. Falta de entendimento quanto ao objetivo da lei.

    Paulo é bem claro quando diz que a lei foi estabelecida com um único propósito, para aumentar a transgressão. “É evidente que diante de Deus ninguém é justificado pela lei” (Gálatas 3:11), “pois, se tivesse sido dada uma lei que pudesse conceder vida, certamente a justiça viria da lei” (Gálatas 3:21). Então, qual o papel da lei na vida do cristão?

    A lei transmite a santidade de Deus e seu alto grau de exigência. Nós como pecadores, jamais conseguiríamos cumpri-la de maneira excelente sozinhos. A lei veio para mostrar o abismo que há entre o Deus totalmente santo e o homem totalmente depravado e que precisávamos de uma ponte para poder atravessar esse abismo. “A lei foi o nosso tutor até Cristo” (Gálatas 3:24). Cristo, o nosso mediador, esse sim nos pode fazer cumprir a lei e nos achegar a Deus. Isso mostra que em nenhum momento a lei nos foi dada como uma forma de salvação. Todos os homens que já morreram e os que irão morrer, foram salvos de uma única forma, através da fé. Então vamos abolir a lei e viver somente na “graça”? Isso nos leva ao nosso próximo argumento.

-Após toda a argumentação “contra” a lei na vida do cristão, a pergunta que logicamente vem a seguir é a mesma apresentada por Paulo. “Vamos pecar porque não estamos debaixo da lei, mas debaixo da graça?” (Romanos 6:15a). E da mesma forma como na argumentação anterior, a resposta é um sonoro “De maneira nenhuma” (Romanos 6:15b). O antinomismo, a linha de pensamento teológico que é contra a lei, é uma das heresias mais antigas da igreja. Talvez você não conheça alguém que defenda abertamente essa linha de pensamento teológica, mas há vestígios dela presente em todas as comunidades cristãs. O que se vê normalmente é uma tendência a utilizar a graça como desculpa ou um tipo de escudo. Quando se fala a respeito de doutrina, santidade, ou mudança de vida, costuma-se dizer “Agora vivemos na graça”, como se estivesse dizendo “Agora posso fazer tudo o que me vem à cabeça”. Devemos lutar contra esse tipo de argumento da mesma forma como Paulo o fez.

Devemos ter em mente que quando Cristo nos livrou da lei através de sua morte, ele nos comprou com o seu precioso sangue (I Coríntios 6:20) e, portanto, agora nós somos escravos de Deus (Romanos 6:22). Dessa forma, “Assim como vocês ofereceram os membros dos seus corpos em escravidão à impureza e à maldade que leva à maldade, ofereçam-nos agora em escravidão à justiça que leva à santidade” (Romanos 6:19). Então, agora vivendo através do Espírito Santo e sendo servos de Deus nós não anulamos a lei, na verdade nós a estamos estabelecendo (Romanos 3:31). Essa é a grande diferença: antes nós tínhamos que cumprir a lei por obrigação e não conseguíamos. Agora nós a cumprimos porque os que são do Espírito são inclinados para as coisas do Espírito (Romanos 8:5). Não há como servir a dois senhores. Paulo é claro quando diz que ou “somos escravos do pecado que leva à morte, ou da obediência que leva à justiça” (Romanos 6:16).

De tudo o que foi explanado vale salientar duas questões. Primeiro: através do que nos foi apresentado pelo Apóstolo Paulo, conseguimos enxergar que tipo de argumentos esse assunto traz à tona. Ou fará com que as pessoas queiram viver pela lei, ou irão confundir liberdade com libertinagem. Entretanto vemos que em nenhum momento Paulo deixou de tratar sobre esse assunto, mesmo sabendo que dúvidas como essa viriam. Não devemos ter medo das dúvidas que irão surgir quando assuntos mais complicados são colocados em evidência. Devemos sim estudar mais e pedir mais sabedoria a Deus para que possamos sanar tais dúvidas da maneira correta. Afinal, o preço que foi pago pela nossa liberdade foi muito alto.

Segundo: a santidade é uma doutrina bíblica. Pecar não é uma obrigação. Claro que todos já pecamos e vamos pecar novamente, mas isso não abre um precedente para que o pecado vire um habito. Pecar deve sempre ser a exceção na nossa jornada, pecar deve nos gerar tristeza e nos conduzir ao arrependimento. O que vemos normalmente nas igrejas é uma doutrina do “Filhinhos, não pequeis. Mas se pecares...”. A santidade deve ser sim um alvo em nossa caminhada cristã, afinal através do novo nascimento somos guiados pelo Espírito Santo a mortificarmos a nossa carne e a nos inclinarmos as coisas do Espírito.

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