Quando a Nossa Conduta Contradiz Nossa Confissão

Todos sabemos como é quando a nossa conduta contradiz nossa confissão.

Texto de Phillip Holmes.
Traduzido por Kellvyn Mendes.
Categoria: Teologia

 

Consideramos estas verdades como auto-evidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são Vida, Liberdade e a busca da Felicidade.

Declaração da Independência

Essas são provavelmente as palavras mais famosas na história da humanidade. Escrita em 1776 e assinadas pelos antepassados de nossa nação, a Declaração da Independência é considerada pelos historiadores como um ponto de virada não somente na história americana, mas também na história da humanidade. Nunca antes um governo tinha estabelecido tais princípios e crenças.

A ideia de que os cidadãos possuíam direitos inalienáveis — vida, liberdade, e a busca pela felicidade — era estranha. Esses eram direitos, de acordo com nossos antepassados, que o homem não havia dado e que o homem não tinha direito de tirar porque nosso Criador havia nos agraciado com eles.

Infelizmente, a América falhou ao viver essas verdades. Aproximadamente duzentos anos depois desse documento ter sido assinado, a escravidão racial foi considerada legal na América e mulheres eram tratadas como se não fossem iguais. Essa parte da história sempre me intrigou quando eu era mais novo. Como pode um país adotar um documento que declarava a igualdade de homens e mulheres, e mesmo assim assinar leis que contradizem completamente o que havia sido escrito?

A vida e a Escritura eventualmente me ensinaram que algumas vezes nossa conduta contradiz nossa confissão

 

Uma vida Inconsistente

Quando me tornei um Calvinista anos atrás, eu acreditei, de forma errônea, que um melhor entendimento de Deus e da Escritura iria aniquilar certos pecados na igreja. Eu pensei que os escândalos, vícios, e graves pecados que eu testemunhava vez após outra na liderança, nos meus círculos não-Calvinista e que seguiam o evangelho da prosperidade, iriam acabar, agora que eu era Reformado. “Esses homens seriam diferentes. ”

Eventualmente, o escândalo surgiu. E eu fiquei devastado. Chorei por horas a primeira vez que isso aconteceu. E então, um por um, muitos mais homens que eu respeitava local e nacionalmente começaram a cair em pecados escandalosos, apesar deles terem uma teologia sólida. Algumas dessas falhas ganharam a atenção nacional. Acredito que cada Cristão entende fundamentalmente o problema desses homens. Todos sabemos como é quando a nossa conduta contradiz nossa confissão.

Se eu tivesse sido mais introspectivo, não seriam necessários escândalos locais e nacionais para me mostrar que algumas vezes Cristãos que amam a Jesus nem sempre vivem da forma como eles professam sua fé. Minha própria vida é um testemunho dessa realidade. A Escritura repetidamente mostra exemplos de pessoas de Deus cuja conduta era inconsistente com aquilo que eles acreditavam.

O exemplo mais memorável é a queda de Davi. A Bíblia descreve ele como um homem segundo o coração de Deus (1 Samuel 13:14), embora ele tenha cometido adultério, e depois assassinado o marido da mulher.

Talvez um exemplo menos escandaloso é a conduta de Pedro em Gálatas 2:12-21. Pedro conhecia Jesus Cristo quando ele esteve na terra e fazia parte do círculo íntimo de Cristo. Ele foi um apóstolo e um autor da Escritura. Mas Paulo teve que lhe enfrentar face-a-face. Por quê? Porque ele era repreensível. Embora ele soubesse que a justificação vem através da fé em Cristo, separado da lei, seu comportamento contradizia completamente o que ele sabia ser a verdade. Paulo claramente diz que sua “conduta não estava condizente com a verdade do Evangelho” (Gálatas 2:14). Ninguém nega que Pedro, autor de duas epístolas, tinha um entendimento rico do evangelho. Ainda assim, mesmo Pedro andou fora do caminho do que ele sabia ser a verdade.

 

Simplesmente Saber não É o Bastante

Quer nossos pecados sejam públicos ou privados, escandalosos ou “respeitáveis”, os Cristãos são homens e mulheres corrompidos que possuem desejos que conflitam com o que sabemos ser a verdade. Esse é o porquê homens e mulheres que sabem que Jesus é melhor do que pornografia e fornicação, ainda assim escolhem a imoralidade sexual. Esse é o porquê homens e mulheres que sabem que o casamento deve ser “vivido em honra entre todos”, o desonra ao cometer adultério (Hebreus 13:4). Esse é o porquê pastores que sabem que “o orgulho vem antes da destruição, e um espírito altivo antes da queda”, se recusam a andar em humildade (Provérbios 16:18). Esse é o porquê os Cristãos cantam “Jesus é Senhor” mas então proclamam com suas vidas, “Eu sou Senhor”.

Muito frequentemente tentamos aumentar nossa maturidade aumentando nosso conhecimento. Enquanto isso impressiona os homens, geralmente diz pouco sobre o que realmente está se passando em nossos corações. Quando buscamos somente o rigor da doutrina para demonstrar maturidade, estamos fazendo algo que pode ser mais demoníaco do que angelical (Tiago 2:19). Uma grande mente teológica se torna demoníaca quando a vida habitualmente contradiz o que a mente confessa. O conhecimento sozinho, embora extremamente importante, é evidência insuficiente se estamos andando ou não em maturidade. Não é suficiente somente conhecer coisas sobre Deus — precisamos conhecer a Deus.

 

Conhecendo Deus

Quando eu penso nos nossos antepassados e os anos de injustiça que seguiram a assinatura desse documento incrível, eu não fico mais intrigado pela gritante hipocrisia americana. Assim como nossos antepassados reconheceram que fomos agraciados com direitos inalienáveis, devemos também reconhecer que nosso antepassado Adão nos infectou com o pecado. Portanto, o conhecimento sozinho não é suficiente para mudar o duro coração dos seres humanos. Precisamos conhecer a Deus para que sejamos verdadeiramente transformados.

Enquanto lutamos com o pecado e nossos desejos maus, devemos ir para a Escritura, não como um meio para saber somente teologia, mas como um meio para conhecer a Deus e de ser conhecido ou sondado por ele e sua palavra. Se queremos conhecer uma pessoa famosa e queremos ser conhecidos por ele, ler sua autobiografia somente é insuficiente. Não traz intimidade porque é unilateral. A Bíblia não é uma autobiografia. É um convite à intimidade com o Criador, o qual se revela a nós através dela e nos convida à interagir com ele através da oração.

 

A Sua Teologia é Saudável?

Respondendo a pergunta “Por que PhD's em teologia cometem adultério?” John Piper diz,

“Eles não conhecem a Deus. Eles não conhecem Deus pelo o que ele é — infinitamente valoroso, infinitamente bonito, infinitamente satisfatório — porque sua alma foi feita. Existem mais prazeres em sua mão direita, mais alegria eterna em sua presença, do que você poderá ter em dez mil encontros sexuais. Se você sabe disso, o pecado perderá o domínio sobre sua vida.”

Quando entendemos que “nossa liberdade vem através de uma pessoa, e não um sistema de ideias e princípios” (Addictions — A Banquet in the Grave: Finding Hope in the Power of the Gospel) a forma como nos aproximamos de nossas falhas, culpa, e vícios é radicalmente diferente. Paramos de tentar mudar a nós mesmos através do legalismo ou da força de vontade, e ao invés disso nos viramos para a pessoa e a obra de Jesus Cristo.

A única forma que podemos verdadeiramente conhecer Jesus Cristo é através das Sagradas Escrituras, pela iluminação do Espírito. O Espírito nos ajuda a ver claramente a bondade de Deus e as alegrias e prazeres que estão disponíveis à nós. Todas as nossas tentativas de amar, aproveitar, e apreciar a Deus como supremamente bom irá falhar miseravelmente a não ser que o Espírito nos dê olhos para ver. Enquanto articulamos o que o Espírito Santo está nos ensinando através da Escritura, nós expressamos nossa teologia. Esse é o porquê a teologia que nós pregamos deve também ser saudável — cheia do Espírito, humilde e consistente.

A doutrina e a teologia que estudamos devem moldar a forma como vivemos. Se estamos estudando para impressionar uns aos outros com nossas ideias nobres e nossas grandes palavras nas redes sociais, a teologia nunca irá nos mudar. Se pastores somente leem suas Bíblias para garantir seus empregos mas não estão suplicando diante de Deus para serem transformados pelo o que estão lendo, eles irão permanecer em seus pecados.

Enquanto lemos as Escrituras e estudamos teologia — todos nós — devemos suplicar à Deus para que quebre nossos corações e nos dê olhos para ver, para que sua verdade mude radicalmente nossas vidas. Nosso objetivo quando estudamos as Escrituras deve ser sempre estar em profunda intimidade com o Pai. Enquanto pensamos grande e mergulhamos nas grandiosas verdades sobre quem Cristo é e o que ele conquistou, não podemos nunca esquecer que essas verdades existem para nossa liberdade e para a glória de Deus.

 

 

Referências

Por John Piper. ©2016 Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org 

Original: http://www.desiringgod.org/articles/when-our-conduct-contradicts-our-confession

 (@PhillipMHolmes) Phillip Holmes serviu como um estrategista de conteúdo no desiringGod.org. Ele é casado com Jasmine. Eles tem um filho.

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