Ore como o publicano

Uma reflexão sobre a parábola do fariseu e o publicano em Lucas 18

Por Arlan Dantas
Categoria: Reflexões

Estamos na época do carnaval, um momento do ano onde todo o nosso país para. Seja você folião, caseiro, cristão, ateu, árabe... nessa época do ano sempre você dá uma desacelerada, seja pra curtir a folia desses dias, participar de um retiro espiritual ou só viajar com a família. E é em meio a esse contexto que quero levar à gente a pensar um pouco sobre uma estória contada por Jesus em Lucas 18.

Essa estória é contada logo após uma parábola sobre uma viúva que “enchia o saco” do juiz incrédulo da sua cidade e, depois de muita insistência, o juiz cede e atende ao seu pedido. Usando esse exemplo, Jesus nos incentiva a não desistir e clamar a Deus dia e noite, pois, por sermos “Seus escolhidos”, seremos atendidos na hora certa, mesmo que pareça demorar (Lc 18.1-8).

A parábola sobre a qual falaremos hoje, vem logo depois dessa e também fala sobre oração, mas ela é direcionada para um público específico e trata de uma outra questão da oração.

Pensemos primeiro sobre o público para quem Jesus fala: “alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros” (Lc 18.9). Talvez você tenha visto isso, pensado no carnaval e já tenha vindo em sua cabeça “lembrei de Fulano, que é desse jeito aí!” mas vamos com calma... Se é você quem está lendo isso, acredito que Deus tem algo a falar com você antes de falar com Fulano, certo? Com certeza, Ele não te trouxe aqui por acaso!

Para essas pessoas que "confiam em sua própria justiça", Jesus conta a parábola que está entre os versículos 9-14 (recomendo que você leia a parábola antes de seguir na leitura do texto). Essa parábola mostra dois homens orando no templo, que naquela época era um lugar muito importante para a religião judaica, pois era o principal lugar do mundo onde os judeus iam para orar e adorar a Deus; então certamente existia um fluxo muito grande de pessoas naquele lugar.

É ali onde estão os homens descritos como "um fariseu" e "um publicano". A distância histórica e cultural talvez dificulte um pouco que a gente entenda do que Jesus está falando, mas essa descrição apontam para modelos típicos daquela época. Os fariseus eram um grupo de judeus conhecidos pelo conhecimento que tinham da Palavra de Deus na sua época. Além disso, eles também zelavam muito pela obediência às ordenanças encontradas nas Escrituras. Eram eles, também, os que faziam grande parte dos questionamentos respondidos por Jesus nas narrativas dos evangelhos (e.g. Lc 15.2). Mas diante da Boa Nova do Evangelho pregada por Cristo da salvação por meio da fé e não das obras, os fariseus são descritos muitas vezes de forma negativa, por se apegarem demais à obediência às ordenanças.

Os publicanos, por sua vez, eram indivíduos odiados pela sociedade judaica e tido como traidores, pois eles eram os cobradores de impostos. Talvez você se pergunte "por que tanto ódio!?". E para entender, devemos lembrar que os judeus se viam como povo eleito e escolhido de Deus; mas naquela época estavam sob domínio do império romano e tinham que pagar tributos ao império. O que os indignava era que os publicanos também eram judeus, membros do povo eleito, que trabalhavam coletando os impostos do povo e mandando para Roma! Por isso o próprio Jesus, em Mateus 18.17 equipara o tratamento deles aos publicanos ao tratamento a um "pagão", que seria alguém que não é membro do povo judeu.

Assim temos uma visão geral de quem seriam esses homens da parábola: um religioso e conhecedor da Escritura e um traidor e renegado pela sociedade. Podemos, então, pensar sobre as atitudes de cada um deles.

Começando pelo fariseu (vv. 11-12), Jesus fala que ele estava "em pé" e orava "de si para si mesmo", como traduzido na ARA, ou "em seu íntimo", como está na NVI. As traduções parecem divergir sobre a forma como o fariseu orava, mas comparando ainda com outras versões e pensando no contexto da parábola como um todo, acredito que a tradução da ARA faça mais sentido; em breve explico melhor. Quanto ao conteúdo da oração, o fariseu agradece a Deus por "não ser como os outros homens", os quais ele descreve como "ladrões, corruptos, adúlteros" e aponta mais especificamente "este publicano". E para se comparar com "os outros homens", o fariseu se descreve como alguém que "jejua duas vezes por semana" e "dá o dízimo de tudo quanto ganha".

Essa auto-descrição aponta para as características que apontamos há pouco dos fariseus, que zelavam por obedecerem tudo quanto as Escrituras ordenavam. O dízimo, de que ele fala, são os 10% da sua produção para sustentar os sacerdotes, os indivíduos que trabalhavam no templo judaico. O jejum, por sua vez, era uma prática que demonstrava humilhação diante de Deus. Então em sua oração o fariseu agradece a Deus por não ser como "os outros" que são pecadores, e ser alguém que guarda e obedece os ensinamentos presentes nas Escrituras.

O publicano também é descrito como estando de pé, mas ele, por sua vez, "ficou a distância". Como disse há pouco, o publicano era alguém rejeitado naquela sociedade e provavelmente também o era no templo, onde havia um grande fluxo de pessoas e onde ele estava naquele momento. Acredito, porém, que a distância que mantém não é só por causa da sociedade, mas também por perceber a sua própria posição diante de Deus; pois Jesus continua dizendo que ele "nem ousava olhar para o céu, mas batia no peito", o que demonstra uma atitude de humilhação. E essa atitude é confirmada pelo conteúdo da oração: "Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador". O publicano não se compara com nenhuma outra pessoa e nem mesmo se descreve como sendo alguém justo ou que obedece aos mandamentos; antes pede misericórdia a Deus por se reconhecer pecador.

Agora, antes de prosseguirmos para a conclusão apresentada pelo próprio Jesus, quero propor um pensamento... como poderiam ser descritas nossos momentos de oração? Será que Jesus também diria que nós oramos "de si para si mesmo" como fez com o fariseu? Ou nossa oração se aproxima mais com a do publicano, que se humilha verbal e fisicamente diante do próprio Deus?

Eu disse que prefiro a tradução da ARA no trecho que descreve a atitude do fariseu pois a forma como ela o faz me parece fazer um contraste com a atitude do publicano. Enquanto o segundo "nem ousa olhar para o céu" e "bate no peito", o fariseu "ora de si para si mesmo", como se não estivesse falando com outra pessoa, mas conversando sozinho.

Por fim, quero dizer, também, que mesmo que a descrição do fariseu no Novo Testamento seja de forma negativa em grande parte das vezes; ser fariseu não é de todo ruim. Como já disse, esse grupo de indivíduos tinham muito conhecimento das Escrituras e zelavam pela sua obediência. Como prova disso, eles chegaram até mesmo a criar um conjunto de regras para auxiliar que as pessoas obedecessem aos mandamentos dados por Deus anteriormente. Hoje, vemos isso como algo negativo, mas certamente eles faziam isso com uma boa intenção e querendo auxiliar que outros obedecessem a Deus. Além disso, os questionamentos que eles faziam a Jesus sobre as atitudes dEle podem ser compreendidas se olharmos do ponto de vista deles: homens zelosos, que queriam que os outros obedecessem aos mandamentos e veem um homem que se diz profeta e quer reinterpretar os mandamentos pelos quais eles zelavam. Por mais que pareça, não estou falando que a intenção é o que importa; antes estou tentando te conduzir a uma compreensão das atitudes desses homens pela própria ótica deles.

O próprio homem que hoje conhecemos como "Apóstolo Paulo", antes de se converter ao cristianismo, era um fariseu e por isso perseguidor dos cristãos. E ele aponta o seu farisaismo como sendo algo positivo no seu texto em Filipenses 3.5. Nesse texto, nos vv. 5 e 6 Paulo está mostrando como ele era um judeu exemplar. Mas o que podemos tirar de mais importante aqui é a conclusão dele para esse seu "status": "o que para mim era lucro, passei a considerar perda, por causa de Cristo" (Fp 3.7). A descrição de Paulo nesse texto se comparado com a do fariseu que Jesus descreve poderia até ser vista como de um "melhor religioso", mas a sua conclusão se parece muito mais com a do publicano que do fariseu, pois ele considera essas coisas como "esterco" para poder ganhar a Cristo (Fp. 3.8).

Com esse panorama geral em mente, podemos ir à conclusão apresentada pelo próprio Jesus para a parábola: "Eu digo que este homem [o publicano], e não o outro [o fariseu], foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado" (Lc 18.14). Talvez para nós, em uma leitura rápida, essa conclusão de Jesus pareça óbvia: "Deus tem misericórdia de quem se humilha, não a quem se exalta". Mas quero que você pense no contexto no qual ele estava falando: onde os fariseus eram os grandes "teólogos", ao passo que os publicanos eram os traidores que todos odiavam. E aí Jesus diz que o odiado volta pra casa justificado enquanto o religioso não. Além disso, lembre-se de quem era o público alvo de Jesus: "alguns que confiavam em si mesmo, por se considerarem justos, e desprezavam os outros" (v. 9). Jesus fala diretamente com essas pessoas: "vocês estão agindo como esse fariseu, mas os pecadores que arrependem e vocês desprezam é que estão sendo justificados".

A frase de sabedoria dita por Jesus ao final do discurso também é muito interessante: "Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado". E acredito que tem um outro texto no Novo Testamento que pode nos ajudar a entendê-la: 1 Pedro 5.6,7: "Portanto, humilhem-se debaixo da poderosa mão de Deus, para que ele os exalte no tempo devido. Lancem sobre ele toda a sua ansiedade, porque ele tem cuidado de vocês".

Essa sequência de ensinamentos de Pedro nos faz entender que devemos sim nos humilhar diante da presença de Deus e reconhecer que somos pequenos; mas não como alguém que é desprezado e colocado de lado, antes sabendo que Quem é grande é nosso Pai, que tem cuidado de nós e no tempo certo há de nos exaltar! Isso não quer dizer que daqui há uns dias estaremos numa vida melhor em uma posição de destaque... talvez possa até ser que isso aconteça! Mas o nosso apego deve ser à promessa da vida eterna, um momento em que seremos levado por Cristo à presença do próprio Deus! Não existe exaltação nem alegria melhor do que esta!

Portanto, juntando tudo isso, temos alguns aprendizados a levarmos. Antes de mais nada, não devemos nos exaltar diante de Deus! Ele é quem nos conhece, mais até do que nós mesmos; Ele sabe que, mesmo não querendo transparecer, somos pequenos. E é também por isso que não devemos nos comparar e se achar melhor que ninguém; talvez você não esteja cometendo o mesmo erro que aquela pessoa, mas com toda certeza você teve alguma atitude hoje que não agradou a Deus e pela qual deve pedir perdão. Então mesmo que Fulano ou Ciclano estejam lá hoje pulando carnaval enquanto você está lendo um texto gospel, não se ache melhor do que ele! Antes, ore a Deus pedindo misericórdia pela vida daquela pessoa e busque contribuir para que ela se liberte desses erros que você tem percebido.

Por fim, eu te recomendo que você busque sim ser conhecedor e zeloso com a Palavra de Deus assim como eram os fariseus; mas faça isso sabendo que isso não vai te fazer melhor que ninguém e muito menos há de te levar para mais perto de Deus apenas por conhecer e obedecer às ordenanças. Isso é uma forma de você saber qual o modelo de vida ideal que Deus espera que você leve, mas saiba que esse modelo só foi alcançado pelo próprio Jesus e é só pelo perdão obtido pela morte dEle que você pode obter vida eterna e proximidade real de Deus.

Humilhe-se diante de Deus, para que no tempo certo Ele te exalte!

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