Em nosso último texto, conversamos sobre a Redenção. De forma geral, costumamos orbitar a Obra de Cristo quando pensamos nesta etapa da metanarrativa bíblica - o que não é errado. Porém, alguns estudiosos1, já há algum tempo, vêm dividindo a redenção em quatro grandes atos:
Sinceramente, gosto bastante deste termo, “Redenção Concluída”. Ele me traz uma noção ainda mais intensa e profunda do fim dos tempos no arco abrangente da história bíblica. “Consumação”, ainda que seja um termo preciso, me conduz a pensar apenas em um fim. Mas “Redenção Concluída” me obriga a pensar em tudo o que a Criação nos ensina (me refiro aos propósitos e aos processos de Deus), bem como na Queda (a quebra humana desses propósitos e processos) e na Redenção (o restabelecimento dos planos divinos para a sua Criação).
Considerar a “Redenção Concluída” me força, portanto, a ver a doutrina do fim não como um simples fim real, mas, segundo diria C. S. Lewis2, como o verdadeiro início da história. Se o plano de Deus era criar pessoas que desfrutariam integralmente de sua plenitude, é agora, na Redenção Concluída, que este propósito finalmente será experimentado totalmente. Logo, a história vai começar verdadeiramente agora3. Esta nossa conversa irá se nortear por este parâmetro.
Toda a história bíblica, como já dito, caminha rumo ao estabelecimento pleno da Shalom de Deus em meio à sua Criação. Além de ser normalmente traduzido como “paz”, o Shalom de Deus se refere à presença de uma harmonia que promove o equilíbrio entre todas as relações e o bem-estar entre todas as pessoas. Desta forma, é especialmente rico nos atentarmos ao texto de Apocalipse 21.3-4, que nos diz:
Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.
Apocalipse 21.3-4
Independente dos mistérios que nutrem debates sobre o fim dos tempos entre diferentes tradições cristãs, uma coisa é fato: no renovo da consumação, Deus habitará com o seu povo, e este experimentará a plenitude da presença de Deus. Tudo aquilo que nos separava do Senhor — tanto o nosso pecado quanto a ira justa de Deus em relação ao nosso pecado — não é mais empecilho algum para o pleno estabelecimento do Shalom.
A despeito de toda a perseguição espiritual, e mesmo contrariando toda dor e tristeza presente, o Deus que iniciou a boa obra em nosso meio a concluirá até o dia de Cristo. O Senhor, que está no controle absoluto da História, a conduzirá para o seu propósito último: a felicidade que satisfaz o Povo e glorifica a Deus. Nenhuma força, espiritual ou material, poderá diluir os planos de Deus. Esta mensagem, abrangentemente bíblica, mas densificada em Apocalipse, deve nos ser fonte de consolo em meio a qualquer tipo de dificuldade: a dor não é a palavra final; a Redenção, sim.
Infelizmente, ainda não aprendemos a resposta de Cristo aos primeiros discípulos sobre a data do fim. Em Atos 1.6 os seguidores de Jesus perguntam sobre quando o Reino seria restaurado plenamente. A resposta de Cristo nos versículos 7 e 8:
Respondeu-lhes: Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra.
Atos 1.7-8
Jesus não diz quando será, mas nos diz que até lá experimentaremos antecipadamente algumas coisas da Eternidade (a Redenção já foi realizada por Cristo, não?) e viveremos em missão, compartilhando com palavras e atos as realidades do Reino de Deus a um mundo marcado pelas trevas da idolatria.
Assim, investirmos tempo buscando desvendar a misteriosa data da segunda vinda de Cristo, e a consequente Conclusão da Redenção, é algo bastante perigoso em muitos níveis:
Creio que deveria bastar aos discípulos de Cristo, digo, a nós que o seguimos, nos alegrar no Espírito, vivermos em Missão e esperar com grandes expectativas o futuro onde a nossa satisfação em Deus será absolutamente plena e sem qualquer empecilho. Talvez buscamos desvendar mistérios porque ainda não aprendemos a nos alegrar no que já temos. Como resposta a isto, penso que devemos clamar ao Espírito que nos ajude a matarmos mais um pouquinho a nossa velha natureza, que é incapaz de se satisfazer no que Deus já nos deu, tem nos dado e nos dará plenamente.
Mais do que uma frase presente em placas de papelão de alguns mendigos norte-americanos (pelo menos, é o que os filmes me mostram...), esta é uma repetida fala de Cristo extremamente importante. Sua frequência nos atrai para o seu peso: Jesus irá voltar, não é uma possibilidade ou um desejo. Ele voltará!
A promessa de sua volta, além de ser um grande consolo, é também a garantia da vitória. Como previamente dito, ainda que experimentemos dores, o Rei Triunfante voltará uma última vez para aniquilar de uma vez por todas tudo o que atrapalha o seu plano original.
Uma vez que a sua vinda é certa, não apenas somos consolados e animados. Somos convocados a vivermos no presente como cidadãos desse futuro reino pleno. Enquanto aguardamos o Noivo, como Noivas, somos convidados a nos alegrarmos nas bodas que estão por vir, trazendo o máximo de pessoas possíveis para esta grande festa. Se este é o evento para o qual toda a História culmina, se este casamento é o grande foco de toda a narrativa bíblica, faz todo o sentido vivermos tendo ele como o nosso grande alvo, não é mesmo?
1 Craig Bartholomew e Michael Goheen são dois nomes importantes para esta perspectiva.
2 “As Crônicas de Nárnia: A Última Batalha”
3 É claro que com isso não queremos desprezar tudo o que aconteceu anteriormente na história. Na verdade, esperamos valorizar ainda mais cada elemento da metanarrativa. Se Deus olha para a Consumação, como ela é tradicionalmente chamada, com tão bons olhos a ponto de desenvolver todo o drama bíblico, creio que nós deveríamos supervalorizá-la também.