Nós, cristãos protestantes, somos criaturas da Palavra. Como já vimos nos estudos anteriores: Deus é um Deus que se revela. Seja de forma geral, através da natureza e das coisas criadas, ou de forma específica, como em sua Palavra. Vimos também que essa Palavra é: Inspirada e Inerrante. Ora, mas o que fazemos com isso? Qual a utilidade das Escrituras?
Quando falamos que a Bíblia é a Palavra de Deus podemos cair no erro de pensarmos que, por ela ser o que é, não iremos compreendê-la de forma alguma. Mas precisamos deixar claro que a Bíblia "é a palavra de Deus nas palavras de homens"1, ou seja, ela é revelada a nós de forma que possamos entender, aprender e praticar. Não é um livro místico compreensível somente a uma casta específica de homens, mas é um livro divinamente inspirado para todos os homens.
No entanto, mesmo sendo a Palavra de Deus divinamente inspirada, a Bíblia não lhe dará respostas acerca de tudo. Ela não se preocupa, por exemplo, em ser um tratado científico, nem tampouco um livro histórico (embora contenha relatos históricos) e muito menos um guia de profissões e revelações acerca de seu futuro cônjuge. Muitas vezes vemos pessoas tentando encontrar na Bíblia exposições biológicas e físicas acerca da criação, por exemplo. É por não entender isso que muitas pessoas se frustram e questionam a inerrância e infalibilidade das Escrituras. Ao nos dirigirmos à Bíblia buscando encontrar respostas para algo que ela não se preocupa em esclarecer, nos assemelhamos a alguém que encontra um pote de ouro, mas se decepciona porque buscava um mapa.
Com isso não estou a dizer que não temos informações acerca de biologia, física, história e sábios conselhos para escolhermos a profissão ou a pessoa com quem casaremos. Mas estou afirmando que o conteúdo do qual a Bíblia gira em torno é muito mais profundo e especial que qualquer teoria científica e conselhos para jovens prestes a entrar na fase adulta. Porque a essas coisas, temos informações fora das Escrituras. O propósito das Escrituras é nos convidar e conduzir a um relacionamento correto com Deus.
A confissão de Fé de Westminster afirma em seu sexto artigo:
Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado nas Escrituras ou pode ser lógica e claramente delas deduzido.
Paulo vai afirmar que a Palavra é útil para o ensino, correção, repreensão e educação, para sermos perfeitos e habilitados para a boa obra (2Tm 3.16). A bíblia é útil para compreendermos quem somos, para onde vamos, quem Deus é e qual a nossa relação com Ele. Conta-nos que fomos criados perfeitos por um Deus perfeito, mas que pecamos contra Ele e, portanto, precisamos ser salvos. A Palavra é útil para nos contar como Deus preparou a nós a salvação, como ela é concedida e qual deve ser o proceder agora que a obtemos. Então, embora tenhamos diversos gêneros literários nas Escrituras como: narrativas, poesias, parábolas, profecias e etc. Todas elas giram em torno da "Narrativa da Redenção". A bíblia revela como nós, homens pecadores, podemos encontrar salvação através e em Cristo.
A importância da Palavra para o cristão é imensurável. Deus criou o mundo através da sua Palavra (Gn 1.1; Jo 1.3), Ele sustenta todas as coisas pela Palavra (Hb 1.3) e na plenitude dos tempos a Palavra encarnou e habitou entre nós (Jo 1.14) e é pela fé na Palavra encarnada, Jesus Cristo, que somos salvos. Paulo ainda vai afirmar que a nossa fé, a mesma depositada na Palavra encarnada para salvação, é gerada pelo ouvir da Palavra de Deus (Rm 10.17). A nossa fé em Cristo depende inteiramente da Bíblia. Isso nos faz ser protestantes: somos criaturas da Palavra.
Ter uma fé que não depende da Bíblia é ter uma fé que depende da própria pessoa que a tem. Ora, ter uma fé que depende da própria pessoa que a tem é um tipo de mérito pessoal. [...] Lamento, mas um fenômeno assim não tem nada a ver com o cristianismo.3
As Escrituras são centrais na vida do cristão de tal forma que o salmista no Salmo 119 proclama que a forma do jovem guardar puro o seu caminho é observá-lo segundo a Palavra de Deus (v. 9). Ainda o mesmo salmo, nos mostra que o antídoto para não pecarmos contra o Senhor é guardar/esconder a Palavra de Deus no coração (v. 11). E em toda a extensão desse longo salmo, o salmista expõe que, quando estamos abatidos, afligidos, angustiados, tristes e em pecado, a solução, abrigo, refrigério, prazer e regozijo se encontram na Palavra. Como cristãos, devemos ter uma vida que gira em torno da Palavra.
Da mesma forma, no culto comunitário nós também devemos ser permeados pela Palavra de Deus. É por isso que no culto nós: oramos as Escrituras, cantamos as Escrituras durante o louvor, lemos as Escrituras, ouvimos as Escrituras pela pregação da palavra e vemos as Escrituras quando há a ministração do batismo e da ceia do Senhor.
A vida do cristão, tanto a individual quanto a comunitária, tem de ser encharcada pela Palavra de Deus.
Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja a perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.
2 Timóteo 3.16
1 VANHOOZER, Kevin. A Trindade, as Escrituras e a função do teólogo: contribuições para uma teologia evangélica. São Paulo: Vida Nova, 2015 , p. 39.
2 A Confissão de Fé de Westminster foi uma confissão produzida pela Assembleia de Westminster (1643-1649) a fim de promover uma unidade na adoração e unidade das igrejas reformadas, de orientação calvinista. Geralmente é utilizada pelas igrejas Presbiterianas. (WESTIMINSTER, Assembléia de. A Confissão de Fé de Westminster. Londres. 1649.)
3 CAVACO, Tiago. Arame farpado no paraíso: o Brasil visto de fora e um pastor visto de dentro. São Paulo: Mundo Cristão. 2021. p. 167