Ao abrirmos a Bíblia, logo no primeiro versículo, encontramos uma das principais afirmações, se não a principal, que norteia toda a Escritura: "No princípio Deus criou os céus e a terra" (Gn 1.1). Se não entendermos a Criação, o resto ficará mal entendido. Afinal, toda boa história tem um começo.
Ao falarmos de Criação é comum pensarmos que iremos debater contra o evolucionismo e colocar Deus contra Darwin. Mas a verdade é que assim como Deus não está a disputar com o biólogo (pois um é Criador e o outro a criatura), assim também as Sagradas Escrituras não têm por objetivo e função trocar suas farpas com a teoria científica. Do contrário, visa afirmar verdades eternas antes mesmo que cientistas pudessem exercer seus primeiros pensamentos.
Como vimos no nosso terceiro texto, "Qual a utilidade da Bíblia?", as Escrituras não se preocupam em explicar detalhadamente aspectos da biologia e da física. Por isso não faz sentido nos aproximarmos do texto bíblico escrito há milhares de anos atrás e contrastá-lo com as mais recentes descobertas como se este fosse contra o primeiro. Como bem mencionado no texto da semana passada, a Bíblia é um conjunto de livros que contam apenas uma História, e por isso, não se detém em esmiuçar outras questões que não apontem e nos ensinam acerca da narrativa principal.
Reconheço que há muitas discussões frutíferas da relação que podemos fazer do relato bíblico e das descobertas científicas. Mas seria prolongar o texto adentrar em tais debates. Por isso precisamos nos atentar que o relato da criação de Gênesis é primeiramente um relato "... teológico, e não cosmológico"1. Ou seja, é muito mais a respeito das verdades eternas afirmadas e do seu propósito, do que um esquadrinhar detalhado de compostos e reações químicas e informações sobre a possível idade da terra. O que precisamos realmente compreender ao ler Gênesis é de que a mensagem central é: Deus pré-existe à sua criação e que por meio da Palavra trouxe à existência.
Calma, não se assuste. A frase é em latim, mas quer dizer tão somente: criação a partir do nada. E esse é um dos conceitos fundamentais da criação. Quando olhamos para Gênesis 1.1 vemos que Deus no princípio dos tempos criou os céus e a terra. Mas esse ato criador não foi feito a partir de algo. Não existia matéria ou qualquer outra substância antes disso. Aliás, não havia nem o aspecto temporal para ter antes ou depois. Deus, que está acima e além do Universo, Ele que é e não depende de nada além dEle mesmo pra ser, criou todas as coisas a partir do nada.
Perceba que quando nós, seres humanos, criamos algo com nossas próprias mãos, sempre o fazemos a partir de algo. Então se eu quero fazer uma mesa, eu utilizo a madeira da árvore. A habilidade do homem, antes de ser uma habilidade de criação, é meramente um manuseio de algo que já foi criado por Deus. A verdade é que o poder criador não está em nossas mãos, porque objetivamente falando, nós não criamos nada. Deus é o único que cria. E no princípio criou tudo a partir do nada.
Mas perceba que nossa afirmação aqui não é de que não havia nada. Havia Deus. E sempre houve Deus.
Deus é autoexistente e eterno em seu ser, e somente ele tem a capacidade de criar coisas a partir de nada. Deus pode chamar o mundo à existência. Isto é o poder de criação em seu sentido absoluto, e somente Deus tem esse poder. Somente ele tem a capacidade de criar matéria, não apenas moldá-la de algum material pré-existente.2
O autor da carta aos hebreus também afirma isso ao dizer que: "Pela fé, entendemos que foi o universo formado pela palavra de Deus, de maneira que o visível, veio a existir das coisas que não aparecem" (Hb 11.3). Deus tem o poder de ordenar que elementos que não existiam viessem a existir e eles passem a existir exatamente como Ele ordenou.
A relação de Deus e sua criação, como mostrada nas Escrituras, é muito distinta das outras religiões do mundo. Enquanto nas demais geralmente há uma identificação do divino com a criação, a Bíblia é enfática em dizer que Deus não é e nem faz parte de sua própria criação. Deus está acima dela e é totalmente independente da mesma.
Deus é eterno, autoexistente, autosuficiente, infinito e eterno. Enquanto o mundo é totalmente dependente, finito e temporal. O mundo criado é absolutamente distinto de Deus. Diferente de algumas concepções panteístas3 que identificam a natureza e os cosmos como sendo divinos, para nós a criação é tão somente criação, e Deus é o Criador.
Precisamos salientar também que o Universo, mesmo não sendo Deus ou parte dEle, também não é um relógio que Deus deu corda e o deixou por si mesmo. Esta concepção de um Criador que criou o Universo e o deixou por sua conta não é bíblica. Deus não é somente transcendente, ou seja, exaltado e acima de todas as coisas criadas, Ele é também imanente, isto é, presente em cada parte de sua Criação, agindo e sustentando tudo o que há pelo poder da Sua Palavra (Hb 1.3).
Precisamos deixar claro que Deus não precisava criar, mas ainda assim o fez por boas e suficientes razões. No Salmo 19 encontramos a resposta para essa pergunta. O salmista declara que "Os céus declaram a glória de Deus...". E Apocalipse 4.11 também fala a respeito: "Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas".
Como dito nos texto anteriores, Deus se revelou por meio da sua Criação e ela glorifica a Deus revelando o poder, sabedoria e beleza do Criador, muito acima de qualquer coisa que poderia ser imaginada. O sol se põe e nasce. Os pássaros entoam suas canções, antes mesmo que o homem tenha acordado. As belas e pequenas borboletas voam por aí sem serem vistas, glorificando a Deus através do bater de suas asas. Deus criou algo bom, e isso glorifica o nome dEle.
Deus não criou primeiramente para receber glória, mas para tornar a Sua glória saliente e manifesta. As gloriosas perfeições de Deus são demonstradas em toda a sua criação; e esta demonstração não é para uma vã mostra, para uma exibição para ser meramente admirada pelas criaturas, mas visa também à promoção do seu bem-estar e da sua perfeita felicidade.4
É interessante vermos no relato de Gênesis que Deus não somente criou todas as coisas, mas Ele se agradou de tudo o que criou. "E viu Deus que isso era bom", essa expressão ocorre seis vezes somente no capítulo 1, e após a criação do homem ainda há uma declaração: "Viu Deus tudo quanto fizera, e eis que era muito bom". A criação de Deus é boa, e isso aponta tão somente para um Deus que é bom, sábio e justo.
Deus criou tudo perfeitamente bom e belo. Todas as estruturas em sua mais perfeita harmonia. Isso significa que nada do que foi feito é intrinsecamente mau. Deus teve prazer ao olhar as obras de suas mãos.
Só tu és o Senhor, tu fizeste o céu, o céu dos céus e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto há neles; e tu os preservas a todos com vida, e o exército dos céus te adora.
Neemias 9.6
1 MERRILL, Eugene H. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009. p. 112
2 SPROUL, R. C. Somos todos teólogos: uma introdução à teologia sistemática. São José dos Campos, SP: Fiel, 2017 , p. 139.
3 "deus é tudo e tudo é deus", talvez esse lema exemplifique a crença panteísta, que acredita que tudo e todos compõem esse ser divino.
4 BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo, Editora Cultura Cristã, 2001 , p. 127
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001
SPROUL, R. C. Somos Todos Teólogos: Uma Introdução à Teologia Sistemática. São José dos Campos: Fiel, 2017.